o corpo que aprende
sobre o corpo gordo, o exercício físico e a máquina que mantém a mente (mais ou menos) sã
Não sei exatamente quando o movimento do movimento começou. Não falo do exercício, mas de outro tipo, interno, mais lento, quase imperceptível. Um dia percebi que não estava me punindo por subir na balança, e sim me reconciliando com ela. Que o cansaço deixava de ser castigo e virava prova de vida.
Queria dizer que veio naturalmente, que não foi um projeto. Mas eu estaria mentindo. Não que meu corpo seja um projeto. Não é. Mas a decisão de implementar melhorias na minha vida como um todo, foi. Um gesto pequeno repetido até eu me lembrar que malhar é um prazer. O corpo, esse mesmo corpo que sempre me exigiu justificativas — “você emagreceu?”, “foi com ozempic?”, “quanto você perdeu?” — começou a aprender em silêncio. A se mover por si, não pelos olhos dos outros.
Porque, se existe uma coisa que eu descobri sobre ser uma mulher gorda, é que eu sou ao mesmo tempo invisível e também ocupo um lugar imenso e desconfortável na mente das pessoas. O fogo vem do inimigo, mas ainda mais do amigo. E esse é um fato que toda pessoa gorda conhece, mas a mulher ainda mais.
Há uma exaustão literal em ser uma mulher gorda e precisar explicar cada centímetro de si. O corpo que precisa dar satisfações: por que engordou, por que emagreceu, por que não se importa, por que resolveu se importar só agora e não antes. “Imagina se você tivesse começado esse movimento uns 10 anos atrás? Já tava casada de novo”. Eu ouvi isso de verdade, fiz minha cara de paisagem enquanto por dentro reorganizava toda a gavetinha de sentimentos e terminei pensando nas minhas amigas magras e solteiras. Qual será o defeito delas, se não suas banhas?
É um ciclo curioso: se você posta, está se exibindo; se não posta, parece que tem algo a esconder. Às vezes penso que o corpo feminino é um documento público em que todo mundo se sente autorizado a comentar, revisar, opinar, como se pertencesse a uma assembleia permanente. Ou a um julgamento em praça pública.

Mas o meu corpo não é um post em rede social. Ele é um lugar que aprendeu a respirar sem pedir licença ou pedir desculpa.
Há uma diferença entre se mostrar e se expor. E por muito tempo eu confundi as duas coisas. Talvez porque toda mulher que ocupa espaço aprenda cedo demais a negociar a própria visibilidade. O corpo se torna um campo de mediações: o que pode ser visto, o que precisa ser escondido, o que deve ser explicado.
Às vezes, quando penso em postar uma foto, sinto o mesmo tipo de vigilância invisível de quem vive em um provador coletivo. Se mostro, é vaidade. Se escondo, é vergonha. Mas a verdade é que eu só quero existir inteira, em todas as formas, nas mudanças que escolhi e nas que vieram comigo e sobre as quais eu não tive gerência alguma.
Meu corpo não precisa se justificar nem se encaixar em uma legenda coerente.
Ele existe antes do registro, antes da aprovação, muito antes do like. E é nesse espaço silencioso e fora da vitrine que tenho aprendido a respirar, a me mover e a me reconhecer.
Descobri que o exercício não era sobre estética e menos ainda sobre controlar a minha narrativa. Era sobre o tempo que só diz respeito a mim. Malhar de manhã cedo é quase garantia de que o mundo não vai invadir esse tempo pessoal e intransferível. É sobre acompanhar uma transformação que não se mede em quilos, mas em ritmo, sono, humor, clareza. E desafio. Eu brinco com o meu personal: “dentre as mulheres normais desse estabelecimento, eu estou pegando mais plaquinhas.” Ele ri. Eu rio. E também não conto as bombadas — afinal, eu sou apenas uma senhorinha fazendo poupança muscular.
Mas os quilos importam, claro. Não só a quantidade de plaquinhas que eu levanto há quase três anos, mas o peso extra que eu carrego comigo. O peso do julgamento e do olhar do outro. Seria desonesto fingir que não.
MAAAASSSSSS. Não é só sobre isso.
E também não é sobre a mulher gorda que se exercita e toma remédios porque publicamente ela está apenas “cuidando da sua saúde”. De vez em quando, amigues, olha só a loucura: ela quer sim caber numa roupa menor. Ela quer usar aquele vestido naquela festa. Ela quer ser apreciada pelada. Porque a mulher gorda, gente, é uma mulher cheia de sensualidade, sexualidade and curvas. Às vezes é sobre estética, sim. Sobre querer gostar do que vê no espelho, caber nas próprias roupas escondidas no armário, se desejar. Mas, no fundo, é sobre existir no corpo sem culpa. Sobre entender que saúde, vaidade e prazer podem coexistir, e que nenhuma dessas razões precisa ser explicada a ninguém.
Eu sempre me exercitei. Fiz balé, surfei, andei de skate, fiz aula de aeróbica e step, musculação sozinha, com personal, pilates, boxe. Sempre gostei da sensação de pensar com o corpo em movimento: é quando as ideias se alinham, o humor se acomoda, o mundo volta ao tamanho certo.
Aqui no templo 50+ que eu habito, percebi que me exercitar moderadamente e com constância entrou na mesma categoria de beber água o suficiente, dormir pelo menos sete horas por dia e tentar manter o mau humor sob controle. Daquelas coisas essenciais que a gente não deveria precisar se esforçar tanto para conseguir — mas o fato é que precisa.
A perimenopausa chegou com suas pequenas revoluções hormonais, e o movimento também virou âncora. Porque o corpo, afinal, é o lugar onde a gente mora permanentemente quando tudo o mais é efêmero.
E aí veio (ou sempre, sempre vem) a pergunta silenciosa: como falo disso para minha filha? Como explico a ela que amar o próprio corpo não é aceitar tudo passivamente, mas cuidar dele com curiosidade e respeito? Que celebrar uma conquista física não é trair a inteligência?
Ela está naquela fase em que o corpo se transforma rápido demais. Um corpo curvilíneo que engorda e emagrece em semanas, que se exercita mas ainda não tem vergonha de se mostrar. Um corpo que está aprendendo a ser visto e, às vezes, a se esconder.
Ela experimenta roupas, poses, espelhos, desejos. Testa estilos, sensualidades, versões de si: algumas vindas do próprio armário, outras do meu. É uma coreografia de descobertas, e eu assisto com ternura e um certo espanto: o corpo dela está ensaiando o que o meu precisou relembrar.
Ela me observa, e talvez esse seja o aprendizado mais profundo. Ver que existe uma alegria em me mover e se move junto. Uma empolgação quando a gente faz rituais coletivos de montar na bike de spinning em casa. E vê também que essa alegria não precisa de legenda. “Vamos fazer academia juntas no final de semana?” O exercício é também uma forma de conexão que não abala as estruturas dos abismos geracionais entre mãe 50+ e adolescentes rebeldes sem causa.
Tenho pensado que o corpo aprende como uma língua: aos tropeços, pela repetição, com erros e com o privilégio de que, independente da minha idade, recheado de novas descobertas. Sim, recheado, essa palavra gostosa e suculenta foi inserido de propósito, aqui.
E termino refletindo que, aprender sobre o próprio corpo é o tipo de coisa que a gente segue fazendo desde que se entende por gente, e acho que talvez seja a forma mais sincera de escrita que existe. A que a gente não publica, mas vive.
o que está rolando aqui?
Hoje, escrevi sobre um assunto que raramente falo em público, estimulada pelas amigas escritoras. Faço isso como parte de um compromisso coletivo. Um “newsletteraço” a partir das conversas do nosso grupo de WhatsApp. Estamos aqui
O corpo que aprende, sobre o corpo gordo, o exercício físico e a máquina que mantém a mente (mais ou menos) sã, da Camila Perlingeiro (euzinha, se vc for copiar essa lista)
Tá Todo Mundo Tentando: malhar. Você fala “treinar”, “malhar” ou “puxar ferro”?, da Gaía Passarelli
Como aprendemos a andar: a dor e os exercícios físicos, da Ana Rüsche
Correr e coçar é só começar? 🏃🏽♀️três perguntas e respostas para iniciantes, da Paula Maria
Mergulho: corpo, movimento, performance, unidades de água, da Mariana Moro
Yoga e o que o corpo guarda — minha história com a yoga: Do Youtube à Rishikesh, na Índia, da Lalai Persson
[essa lista vai aumentando ao longo do dia, volte aqui pra não perder nenhuma. Tem mulher falando de corrida, yoga, academia, natação e reflexões individuais sobre o corpo]
Essas mulheres são incríveis e todo tema discutido é uma delícia e também funciona quase como um grupo de apoio, sabe? A gente fala de substack, estatísticas, temas, mas também fala de livros, de escrita, de processos, de mercado editorial. E, também de tudo o que pulsa por trás disso: as dificuldades na escrita e fora dela, o cansaço, as decepções, as pequenas alegrias de continuar criando, dá dicas, sonha junto, fala de filhos, relacionamentos e, também, de cuidar do corpo — e como. Foi uma delas que usou esse termo “poupança muscular”, que eu adotei pra vida. Falamos de mobilidade e do futuro da nossa saúde enquanto descobrimos novas maneiras de nos manter em movimento. E daí surgiu essa ideia de um tema que está na cabeça de muitas de nós e que pedia pra virar reflexão.
e por falar em corpo
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O corpo aprende e sua escrita (lindamente) compartilha. Obrigada, amei!
Ficou linda. Muito especial. Em particular, a ternura da relação mãe e filha 🧡