eu odeio começos
sobre a dificuldade de começar e o consolo de saber que Snoopy nunca passou da primeira frase, mas eu sim.
Eu odeio começos.
De livros, de amores, de e-mails.
Talvez seja por isso que a minha vida de solteira me parece eterna, porque começo nenhum me parece suportável. Explicar múltiplas vezes quem eu sou, repetir as histórias que já contei, fingir surpresa com as coincidências, equilibrar a troca entre parecer interessante e estar interessada. E aquele primeiro encontro meio desconfortável, quando o garçom demora e o assunto também. Isso tudo virou o meu pior pesadelo depois de tantos prólogos que não viraram epílogos.
O começo é uma promessa que ainda não sabe o que está prometendo.
Escrever, por exemplo, começa sempre antes da primeira frase. Antes do cursor piscando. Antes de eu saber o que quero dizer. É um território de hesitação, como se eu estivesse tateando as bordas de algo que ainda não nasceu e que, por isso mesmo, me assusta.
Começos me deixam ansiosa porque tudo é frágil no início: as palavras parecem erradas, o tom é sempre demais ou de menos, e eu fico tentando adivinhar se o leitor vai ficar ou vai embora. Com pessoas é igual. O começo de uma relação é esse intervalo em que ninguém se conhece direito e tudo é projeção – uma coreografia ensaiada para que ninguém perceba o descompasso.
Todo começo é involuntário, já dizia Fernando Pessoa. E, talvez, esse seja o problema.
A gente não decide começar. As coisas começam quando querem. Começos são acidentes, tropeços de um instante em que algo se move e você se vê envolvida, sem ter planejado. O livro começa quando uma frase atravessa. O amor começa quando alguém encosta o olhar. A vida recomeça quando você não tinha a menor intenção de mudar.
E mesmo assim, começo.
Porque há uma força quase ridícula em começar, uma necessidade que não se explica. Nenhum começo é seguro, mas todos são necessários.
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o truque sujo das primeiras frases
Tenho, porém, uma confissão: quando preciso escrever e o começo me apavora, uso um truque. Um recurso absolutamente safado. Começo com uma frase que pareça um mic drop. Algo que estoure como confete antes da festa. “Eu odeio começos”, por exemplo.
Essas frases explosivas são salva-vidas disfarçados de estilo.
Um atalho para que eu possa pular direto para o meio, onde as ideias já têm corpo e eu posso respirar.
O leitor acha que é confiança; na verdade, é desespero.
Às vezes, o começo é só uma armadilha que eu monto para mim mesma: uma frase grande o bastante para esconder o pânico de não saber o que vem depois.
“it was a dark and stormy night”
Ninguém jamais vai superar o maior de todos os começos ruins ou perfeitos, dependendo do humor do dia: It was a dark and stormy night.
A frase abre um romance de 1830 de Edward Bulwer-Lytton, chamado Paul Clifford. É considerada o exemplo supremo do exagero literário, tanto que deu origem a um concurso internacional de paródias, o Bulwer-Lytton Fiction Contest, que premiava todo ano o pior primeiro parágrafo imaginável.
Mas o que eternizou o It was a dark and stormy night foi o Snoopy, o cão de Peanuts, tentando escrever seu romance na casinha. Snoopy recomeça o mesmo livro todos os dias, e sempre com essa frase. Ele nunca passa dela. Chove, venta, e o manuscrito não anda.
Às vezes penso que o Snoopy não é um fracassado literário e sim um profeta da angústia dos começos.
Ele entende o que a gente tenta negar: que começar é impossível. Que o verdadeiro começo é insistir de novo na mesma frase até que alguma coisa finalmente se mova. Tal qual livros, novos hábitos ou relacionamentos.
talvez eu não odeie tanto assim
Passada a necessidade de “fazer gênero”, percebo que talvez eu não odeie os começos em si, até porque “ódio” é uma palavra forte, com cara de clickbait. O que eu realmente sinto é hesitação, aquele desconforto de quem está prestes a entrar num lugar desconhecido.
Odeio, talvez, o que os começos revelam em mim: o medo do erro, o medo do ridículo, o medo de que o meio e o fim não estejam à altura da primeira linha.
Mas começo. Sempre começo. Mesmo tremendo, mesmo reclamando, mesmo procrastinando. No fundo, eu já cheguei a conclusão que o início é a parte mais honesta de todas: a que ainda não aprendeu a fingir que sabe onde vai dar.
Talvez seja isso que me mantenha começando, apesar do medo: a suspeita de que o começo é só um disfarce para o movimento. Que o que importa mesmo não é a largada nem a linha de chegada e sim aquele trecho entre uma coisa e outra, onde a gente tropeça, reescreve, abandona, volta, tenta de novo.
Começar é só uma forma de continuar.
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Eu amo começos!
Camila, lembrei do primeiro ensaio do livro da Marília Garcia, Pensar com as Mãos. Cê leu? Boa sorte com seus começos da semana 🤍